“O Actual e o Virtual”
O virtual tem,
surpreendentemente, pouco a ver com o falso, a ilusão ou com o imaginário, (P.
Lévy), bem pelo contrário, o virtual é o agora, o real, um real não só presente, mas igualmente potencial, só
desmontada pela realização do actual. A actualização é uma passagem, uma resposta à presença do virtual. Se o virtual inclui o carácter específico
da problemática, o actual concretiza-se na sua solução, na medida em que se
torna o seu agente. Segundo P. Lévy, na filosofia escolástica, o virtual é o
que existe em potência, não em acto, «a árvore está virtualmente presente na
semente». No conjunto de possibilidades que o real oferece, o virtual
selecciona o que tem maior potencialidade de existência. Essa latência só é
posta em causa pela factualidade do actual. No actual toda a latência deixa de
existir porque se transformou na sua actualização, assim o problema deixa de
existir, porque foi encontrada a solução. O que era para ser deixa de o ser
porque já é! Se voltarmos à semente: ela é potencialmente uma árvore, mas no
momento que cumpre o seu devir e se actualiza, transformando-se na árvore,
deixou de ser virtual e perdeu a sua potencialidade, a sua força latente de
estar a ser, porque já é árvore! Entretanto aquilo que acabou por se tornar em ser
actual, pode por sua vez potencializar e, num desvio da realidade,
criar uma nova possibilidade, cuja existência latente transforma virtualmente
noutra realidade. Pode afirmar-se então que a actualização consequente daquela
semente, cujo devir seria ser uma árvore, com todas as características de uma
árvore, seja actualizada em algo diverso daquilo para o qual estava programado
ser, levantando uma nova questão. Confuso? Dou um exemplo, talvez um pouco
forçado mas que pode talvez ilustrar melhor: voltando ao mundo das plantas... é suposto
uma planta ser imóvel (ou pelo menos ter um movimento relativamente lento em
comparação ao movimento dos animais), desfrutar dos raios do Sol, essenciais para a sua
função clorofilina e alimentar-se das seivas que a terra ajuda a fornecer com os
seus minerais, para crescer robusta e saudável na natureza. É isto que se
espera de uma planta na Natureza. Nada fez supor como planta, surpresa no passado,
da inesperada descoberta das plantas carnívoras. Houve uma actualização do seu
estatuto e daquilo que era suposto serem. Tornaram-se predadoras, e os seus
movimentos, relativamente imóveis, ganharam vida numa mobilidade repentina para
caçar insectos. Saiu assim de uma estado pré-definido e actualizou-se,
tornando-se naquilo que P. Lévy chama de um complexo problemático. Ao
transformar-se num problema (questão) entrou num processo de virtualização (que a
Natureza actualizou com outras respostas, criando o equilíbrio necessário para
a existência e a coexistência). Esta dinâmica caracteriza P. Lévy como uma virtualização, que
considera como o movimento inverso da actualização, como que uma
espécie de retorno (em realidades diferentes), ao virtual.
Existe uma propriedade comum no
virtual e na virtualização: a sua não-presença. Essa ausência de espaço
físico-temporal (a presença implica um conceito temporal, como um acontecimento
que necessita de um antes e um depois), levanta a questão daquilo que P. Lévy
chama de desterritorialização. Num espaço virtual como o ciberespaço, não existem fronteiras, nem no espaço nem no
conhecimento (conhecer traz implícito o momento), a informação é assim
comunicada com uma velocidade e quantidade nunca antes conseguida, e toda a sua
linearidade é antes uma translinearidade porque salta entre mundos de conceitos
e consciências, não em avanços ou recuos, mas em paralelos, os quais ainda
falta decidir se tal trará progresso para a humanidade, ou se terá
consequências indesejadas. P. Lévy afirma que «o aumento da comunicação e
generalização do transporte rápido participam do mesmo movimento de
virtualização da sociedade, da mesma tensão em sair de uma presença».
Se por um lado existe um maior
acesso à informação, atingindo rapidamente o conhecimento necessário segundo
critérios pessoais ou colectivos, por outro lado essa cultura de ciberespaço
atira a sociedade para uma dimensão sem tempo, e o tempo traz história, com a
qual nos identificamos, e essa identificação diz quem somos, revela a nossa
identidade.
(baseado no livro “O Que é o
Virtual” de Pierre Lévy)
Joaquim Ng Pereira
Sem comentários:
Enviar um comentário