segunda-feira, 22 de abril de 2013


“O Actual e o Virtual”
O virtual tem, surpreendentemente, pouco a ver com o falso, a ilusão ou com o imaginário, (P. Lévy), bem pelo contrário, o virtual é o agora, o real, um real não só presente, mas igualmente potencial, só desmontada pela realização do actual. A actualização é uma passagem, uma resposta à presença do virtual. Se o virtual inclui o carácter específico da problemática, o actual concretiza-se na sua solução, na medida em que se torna o seu agente. Segundo P. Lévy, na filosofia escolástica, o virtual é o que existe em potência, não em acto, «a árvore está virtualmente presente na semente». No conjunto de possibilidades que o real oferece, o virtual selecciona o que tem maior potencialidade de existência. Essa latência só é posta em causa pela factualidade do actual. No actual toda a latência deixa de existir porque se transformou na sua actualização, assim o problema deixa de existir, porque foi encontrada a solução. O que era para ser deixa de o ser porque já é! Se voltarmos à semente: ela é potencialmente uma árvore, mas no momento que cumpre o seu devir e se actualiza, transformando-se na árvore, deixou de ser virtual e perdeu a sua potencialidade, a sua força latente de estar a ser, porque já é árvore! Entretanto aquilo que acabou por se tornar em ser actual, pode por sua vez potencializar e, num desvio da realidade, criar uma nova possibilidade, cuja existência latente transforma virtualmente noutra realidade. Pode afirmar-se então que a actualização consequente daquela semente, cujo devir seria ser uma árvore, com todas as características de uma árvore, seja actualizada em algo diverso daquilo para o qual estava programado ser, levantando uma nova questão. Confuso? Dou um exemplo, talvez um pouco forçado mas que pode talvez ilustrar melhor: voltando ao mundo das plantas... é suposto uma planta ser imóvel (ou pelo menos ter um movimento relativamente lento em comparação ao  movimento dos animais), desfrutar dos raios do Sol, essenciais para a sua função clorofilina e alimentar-se das seivas que a terra ajuda a fornecer com os seus minerais, para crescer robusta e saudável na natureza. É isto que se espera de uma planta na Natureza. Nada fez supor como planta, surpresa no passado, da inesperada descoberta das plantas carnívoras. Houve uma actualização do seu estatuto e daquilo que era suposto serem. Tornaram-se predadoras, e os seus movimentos, relativamente imóveis, ganharam vida numa mobilidade repentina para caçar insectos. Saiu assim de uma estado pré-definido e actualizou-se, tornando-se naquilo que P. Lévy chama de um complexo problemático. Ao transformar-se num problema (questão) entrou num processo de virtualização (que a Natureza actualizou com outras respostas, criando o equilíbrio necessário para a existência e a coexistência). Esta dinâmica caracteriza P. Lévy como uma virtualização, que considera como o movimento inverso da actualização, como que uma espécie de retorno (em realidades diferentes), ao virtual.
Existe uma propriedade comum no virtual e na virtualização: a sua não-presença. Essa ausência de espaço físico-temporal (a presença implica um conceito temporal, como um acontecimento que necessita de um antes e um depois), levanta a questão daquilo que P. Lévy chama de desterritorialização. Num espaço virtual como o ciberespaço, não existem fronteiras, nem no espaço nem no conhecimento (conhecer traz implícito o momento), a informação é assim comunicada com uma velocidade e quantidade nunca antes conseguida, e toda a sua linearidade é antes uma translinearidade porque salta entre mundos de conceitos e consciências, não em avanços ou recuos, mas em paralelos, os quais ainda falta decidir se tal trará progresso para a humanidade, ou se terá consequências indesejadas. P. Lévy afirma que «o aumento da comunicação e generalização do transporte rápido participam do mesmo movimento de virtualização da sociedade, da mesma tensão em sair de uma presença».
Se por um lado existe um maior acesso à informação, atingindo rapidamente o conhecimento necessário segundo critérios pessoais ou colectivos, por outro lado essa cultura de ciberespaço atira a sociedade para uma dimensão sem tempo, e o tempo traz história, com a qual nos identificamos, e essa identificação diz quem somos, revela a nossa identidade.
(baseado no livro “O Que é o Virtual” de Pierre Lévy)

Joaquim Ng Pereira

Sem comentários:

Enviar um comentário