domingo, 14 de abril de 2013


Endoutrinamento
(BLADE RUNNER)

 Para além do condicionamento, também o endoutrinamento pode ser aproximado da programação a que os replicants foram sujeitos. Vejamos alguns exemplos de endoutrinamento recolhidos no livro “L’Endoctrinement” de Olivier Reboul. Um primeiro exemplo é a inculcação de uma doutrina perniciosa, que possa conduzir a perigos insuspeitados. Não que ensinar um erro seja um endoutrinamento. Só há endoutrinamento quando o erro é pernicioso. É o caso de endoutrinar as crianças na ideia de que os seus colegas negros são ladrões e pessoas crueis. Inculca-se não só o erro mas também o ódio. Outras formas menos óbvias de endoutrinamento: fazer aprender sem dar a compreender aquilo que deveria ser compreendido, usar no ensino o argumento de autoridade para ensinar, ensinar a partir de preconceitos, ensinar uma doutrina como se esta fosse a única possível, ensinar como científico aquilo que não é, ensinar excluindo tudo o que não está a favor do ponto de vista adoptado, falsificar os factos para defender a sua doutrina.
O endoutrinamento pode pois ser entendido como um ensino que é dominado pela tendência a mascarar os factos que o incomodam. Uma segunda característica seria o carácter unilateral dos seus argumentos. Não se trata de pensar nos prós e nos contras: ou tudo são prós ou tudo são contras. A utilização de argumentos ilegítimos, o medo de pensar e de deixar pensar, o ódio para com todos aqueles que podem fazer perigar as suas certezas, o maniqueísmo relativamente aos valores, às doutrinas ou aos homens que os encarnam, a ausência de auto-crítica, a constante confusão entre força e razão, entre chantagem e diálogo, entre submissão e adesão, entre vencer e convencer seriam outras tantas formas de caracterizar o endoutrinamento. Em limite, o endoutrinamento implica desdém pelo homem, sempre visto como meio para servir uma causa ou obstáculo que importa dominar. Uma última característica: a falta de humor. A lavagem ao cérebro é a forma mais espectacular de endoutrinamento. O que a caracteriza é a vontade dos manipuladores produzirem um “homem novo”, de transformar o homem não só a nível das suas crenças mas também a nível daquilo que ele é. E como é possível modificar um homem, inculcar-lhe uma doutrina que não é a sua, e que até pode ser contraditória à sua? A partir das descobertas de Pavlov percebeu-se que a inibição prolongada dos reflexos adquiridos provoca uma angústia intolerável que se liberta por reacções opostas à conduta habitual. Um cão, por exemplo, prender-se-á ao homem do laboratório que ele detesta e tentará atacar o homem que ele adora. Ora, é possível transpor este mecanismo para os humanos.
O homem pode passar a amar o que odiava e vice versa. Isto não se consegue apenas por persuasão mas por imposição de provas intoleráveis. Fadiga, repetições intermináveis, falta de comida e de sono, separação do meio social e controlo permanente do grupo, exaltação colectiva, eis como se processa a lavagem ao cérebro. Produz-se então uma “ inibição protectora”, que desorganiza os reflexos adquiridos, destrói a estrutura psíquica, e determina que o sujeito abandone as suas crenças. Alguns reagem com atitudes completamente opostas às que tinham, outros ficam capazes de acreditar em tudo o que lhes digam a seguir. Situações deste tipo foram observadas em soldados traumatizados pela guerra com graves desequilíbrios nervosos, crises de angústia muito violentas acompanhadas de delírio que acabavam em coma. Quando o soldado acordava, estava curado. A crise havia destruido o condicionamento patogénico (obsessões, alucinações, etc.).
Donde se pode concluir: 1) que o endoutrinamento, seja ela político ou religioso, não apela à inteligência mas actua provocando emoções violentas que desorganizam o psiquismo e permitindo assim a metamorfose, 2) que não se resiste ao endoutrinamento: mesmo que se compreenda o que se está a passar e o que se pode esperar, a violência da agonia abolirá mais cedo ou mais tarde o sentido crítico.
 In”Blade Runner” João Henriques/Patrícia Lourenço (Ed. FCL/2000)

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