Endoutrinamento
(BLADE RUNNER)
O endoutrinamento pode pois ser entendido como um ensino que é dominado pela
tendência a mascarar os factos que o incomodam. Uma segunda característica
seria o carácter unilateral dos seus argumentos. Não se trata de pensar nos
prós e nos contras: ou tudo são prós ou tudo são contras. A utilização de
argumentos ilegítimos, o medo de pensar e de deixar pensar, o ódio para com
todos aqueles que podem fazer perigar as suas certezas, o maniqueísmo
relativamente aos valores, às doutrinas ou aos homens que os encarnam, a
ausência de auto-crítica, a constante confusão entre força e razão, entre
chantagem e diálogo, entre submissão e adesão, entre vencer e convencer seriam
outras tantas formas de caracterizar o endoutrinamento. Em limite, o endoutrinamento
implica desdém pelo homem, sempre visto como meio para servir uma causa ou
obstáculo que importa dominar. Uma última característica: a falta de humor. A
lavagem ao cérebro é a forma mais espectacular de endoutrinamento. O que a caracteriza
é a vontade dos manipuladores produzirem um “homem novo”, de transformar o
homem não só a nível das suas crenças mas também a nível daquilo que ele é. E
como é possível modificar um homem, inculcar-lhe uma doutrina que não é a sua,
e que até pode ser contraditória à sua? A partir das descobertas de Pavlov percebeu-se
que a inibição prolongada dos reflexos adquiridos provoca uma angústia intolerável
que se liberta por reacções opostas à conduta habitual. Um cão, por exemplo,
prender-se-á ao homem do laboratório que ele detesta e tentará atacar o homem
que ele adora. Ora, é possível transpor este mecanismo para os humanos.
O homem
pode passar a amar o que odiava e vice versa. Isto não se consegue apenas por persuasão
mas por imposição de provas intoleráveis. Fadiga, repetições intermináveis, falta
de comida e de sono, separação do meio social e controlo permanente do grupo, exaltação
colectiva, eis como se processa a lavagem ao cérebro. Produz-se então uma “ inibição
protectora”, que desorganiza os reflexos adquiridos, destrói a estrutura psíquica,
e determina que o sujeito abandone as suas crenças. Alguns reagem com atitudes
completamente opostas às que tinham, outros ficam capazes de acreditar em tudo
o que lhes digam a seguir. Situações deste tipo foram observadas em soldados
traumatizados pela guerra com graves desequilíbrios nervosos, crises de
angústia muito violentas acompanhadas de delírio que acabavam em coma. Quando o
soldado acordava, estava curado. A crise havia destruido o condicionamento
patogénico (obsessões, alucinações, etc.).
Donde se
pode concluir: 1) que o endoutrinamento, seja ela político ou religioso, não
apela à inteligência mas actua provocando emoções violentas que desorganizam o psiquismo
e permitindo assim a metamorfose, 2) que não se resiste ao endoutrinamento:
mesmo que se compreenda o que se está a passar e o que se pode esperar, a
violência da agonia abolirá mais cedo ou mais tarde o sentido crítico.
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