Trabalho de Humberto Maturana
e Francisco Varela
(Por: Edla M. F. Ramos)
Humberto Maturana e Francisco
Varela desenvolveram um trabalho transdisciplinar centrado no propósito de
entender a organização do sistemas vivos com relação ao seu caráter unitário.
Para tal, foi preciso que esses pesquisadores levassem em conta os principais
desafios que esse entendimento impunha, quais sejam: entender a natureza autônoma
da organização biológica e entender como a identidade pode
ser mantida durante a evolução que gera a diversidade. Os autores não
fazem, pois não são necessárias, distinções sobre nenhuma classe ou tipo de ser
vivo, nem descrevem os seus componentes. Apenas explanam quais são as relações
que permanecem invariantes entre tais componentes, e que constituem o ser vivo
enquanto tal, não importando qual é a sua natureza.
Além de reformular um fenômeno,
mostrando como as relações e interações entre seus componentes o geram, como
ocorre em toda a explanação, é meta central dos autores (pois têm claro que
toda explanação é feita por um observador do fenômeno) distinguir
claramente o que pertence ao sistema como constitutivo da sua fenomenologia e o
que apenas pertence ao domínio da sua descrição. Esta distinção é uma proposta
de atitude epistemológica nova e já demonstrou o quanto é fecunda no próprio
trabalho dos seus proponentes.
A abordagem feita é, num certo
sentido, mecanicista, pois nenhuma força ou princípio que não esteja no
universo físico é invocada. Os seres vivos serão tratados como máquinas, donde
os autores precisam responder 'que tipo de máquinas elas são?' e 'qual
é a sua fenomenologia, incluindo reprodução e evolução, a partir da sua
organização unitária?'. Apesar de mecanicista, a abordagem não é reducionista
ou atomista, uma vez que é o caráter unitário do ser vivo que tenta ser
compreendido de forma transdisciplinar.
O uso do termo transdisciplinar,
ao invés dos termos interdisciplinar e multidisciplinar, é mais adequado para
explicar este aspecto do trabalho dos autores, pois, como bem observou Stanford
Beer, (no prefácio que escreveu para o livro Autopoiesis e Cognição):
"...se o livro lida com
sistemas vivos, então deve tratar de biologia. Se ele diz alguma coisa
científica sobre organização, então deve falar de cibernética. Se pode
reconhecer a natureza do caráter unitário, deve ser um livro de epistemologia -
e também, lembrando a grande contribuição do primeiro autor sobre percepção,
deve lidar com psicologia. O livro é indubitavelmente sobre todas estas coisas.
Chamaríamos, portanto, esta área interdisciplinar de psicociberbioepistêmica?
Faríamos isso se quiséssemos insultar os autores, pois o seu estudo não
inter-relaciona disciplinas, ele as transcende. Na verdade, parece que ele as
aniquila..." (Beer in Maturana, 1987: 65).
Maturana e Varela desenvolvem uma
abordagem em busca de síntese e não de análise e classificação. Segundo estes
autores a ciência de hoje teve o seu progresso instrumentalizado por análise e
categorização, o que produziu uma visão de mundo difícil de mudar. Nessa visão
de mundo os sistemas reais são aniquilados pela própria tentativa de
entendê-los, sendo suas relações definidoras(???) perdidas uma vez que não são
categorizáveis (???).
Consideram os autores que nenhuma
posição ou ponto de vista que tenha alguma relevância no domínio das relações
humanas está livre de implicações éticas e políticas. Logo, nenhum cientista
pode considerar-se alheio a estas implicações. Tais implicações foram
explicitadas pelos autores a partir da resposta à seguinte questão: "as
sociedades humanas são ou não são elas mesmas sistemas biológicos? ".
As noções de observador,
distinção, unidade, organização e estrutura são os alicerces da teoria de
Maturana e Varela. Elas são sintetizadas a seguir.
O observador
Tudo que é dito é dito por um
observador. O observador é um ser humano, portanto, um sistema vivo, e tudo
o que se aplica aos sistemas vivos também se aplica a ele. O observador
contempla simultaneamente a entidade que ele considera e o universo
no qual ela vive. Ele é capaz de operar ou de interagir com a entidade
observada e com as suas relações.
Uma entidade é o que pode ser descrito
pelo observador, descrever é enumerar as interações e relações atuais ou
potenciais da entidade descrita. Isso só pode ser feito se existe pelo menos
uma outra entidade distinguível com a qual a entidade descrita pode ser
relacionada e interage.
O entendimento da cognição como
um fenômeno biológico deve levar em conta o observador como um sistema vivo e o
seu papel.
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