Subjectividade e objectividade
(a propósito de Francisco J. Varela)
Como é que as centopeias caminham
com tantas pernas sem se tropeçarem? Como é que estendemos e apertamos as mãos
em cumprimento e não falhamos o alvo? Como é que andamos e nos equilibramos em
2 pernas? Estes podem ser indícios simples do funcionamento do saber. É possível,
a partir daqui, inferir a realidade como modelos de representação. Quando vemos
a cor azul, ela viaja até à nossa percepção através da luz. No entanto, não
existe nenhuma relação entre luz e cor e isto, é o que alguns estudiosos
consideram um paradoxo. Então podemos dizer que o conhecimento da realidade é uma invenção
humana. É um sistema criado para que possamos conceber a realidade e
entendê-la. Assim, a realidade não assenta apenas na objectividade da sua
existência. É a profundeza da subjectividade humana que lhe traz um sentido e
forma. A existência do objecto não teria significado se não for o indivíduo a
dar-lhe uma razão para a sua existência, a sua materialidade e a sua essência,
é essa importância que conferimos ao mundo que justifica a sua existência, e
que pode ser tão variável e múltipla, conforme essa importância que lhe
atribuímos. Tudo o que «existe» aos nossos olhos, justifica-se porque assim o
decidimos, segundo o seu grau de importância. Essa percepção é tão mais
singular, quanto maior for o nosso individualismo. A objectividade do mundo
assenta assim na própria subjectividade dos seres. Tudo o que se faz e se
experiencia, é produzido no mundo, isto é, a realidade é o resultado da
experiência que se tem com ela, a forma como interagimos com ela e do
conhecimento que foi produzido. A maneira como percepcionamos essa realidade,
modifica-a. Podemos então dizer que o mundo é feito à nossa medida e somos a
medida do mundo. “A abelha sonha com a flor e a flor sonha com a abelha” – este
é o ciclo evolutivo, é a latência dialéctica que determina a nossa “pedra
filosofal” pessoal e que transforma a essência do real.
Joaquim Ng Pereira
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